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SINTO NOTAS DE CAFÉ NO MEU VINHO • é grave, doutor?

As sensações aromáticas de tosta e defumado que barricas de pouco uso são capazes de conferir ao vinho, ativam a memória do apreciador e o ajudam a resgatar suas maiores referências ligadas à este mesmo estímulo.

De forma alguma. Em muitos estados brasileiros, o café é uma bebida quase obrigatória e está presente em vários momentos do dia, principalmente após o despertar. O hábito de consumo cria um forte vínculo, que mantém as características sensoriais do café muito vivas na memória do brasileiro. Esse vínculo é tão poderoso que mesmo quem não bebe café, participando apenas como testemunha do preparo, é fortemente impactado por uma espécie de atmosfera aromática que envolve todo esse ritual.


O café popular, que tá na boca do povo, mas que ao mesmo tempo enche de desgosto especialistas e entendidos do assunto, por mais que venha sendo massacrado e questionado por sua qualidade nos últimos anos é o suficiente para alimentar o acervo sensorial de toda e qualquer pessoa nesse sentido.

A torra do café é um processo que altera significativamente suas características e para muitos isso representa uma semelhança aromática muito clara, como certas características que encontramos na maioria dos vinhos que passam período de estágio em barricas.


As sensações aromáticas de tosta e defumado que barricas de pouco uso são capazes de conferir ao vinho, ativam a memória do apreciador e o ajudam a resgatar suas maiores referências ligadas à este mesmo estímulo.


Numa avaliação de vinhos que têm contato com madeira, o café costuma ser o mais citado como referência sensorial de tosta, mas não é o único. Chocolate, baunilha, caramelo, cocada, balsâmico, fumo, resina, serragem, presunto defumado e bacon também são grandes referências neste quesito. Isso varia muito em função do tempo de estágio, do estilo, do potencial da uva e do tipo de madeira, sendo carvalho a madeira mais conhecida. Apesar de ser considerada a principal ativadora dessas percepções sensoriais a madeira não é a única capaz de evocar uma lembrança de café no vinho, existem outros casos específicos onde também é possível trazer a memória de um cafezinho feliz. Não vou entrar nessa polêmica hoje. Eu juro.


Você acha que o café te desperta para o vinho ou o vinho que te desperta para o café?


Tita Moraes

Sommelier e Escritora

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